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Pedalando (nem sempre) pela história: como surgiu a bicicleta
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Pedalando (nem sempre) pela história: como surgiu a bicicleta

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Hoje em dia temos bikes dos mais variados tipos, mas como era a primeira delas? Você conhece a história de como surgiu a bicicleta? Para chegar aos modelos atuais, muita coisa esquisita fez parte do desenvolvimento e muitas geringonças foram colocadas à prova. Os gênios do passado aos quais somos tão gratos podem não ter chegado à perfeição, mas não sossegaram e encaminharam o processo para as magrelas que tanto amamos.

Celerífero

celerífero

Temos orgulho de apresentar o celerífero, criado pelo Conde Méde de Sivrac, na França, em aproximadamente 1790. Este objeto foi o ponto de partida para a criação da bicicleta. Como você deve estar se perguntando: cadê os pedais? Já adianto que o celerífero se locomovia pela força das pernas. As rodas funcionavam apenas para facilitar a locomoção e dar um descanso, nada mais. Lembra do carrinho do Fred Flintstone? O celerífero funcionava de forma bem semelhante.

Draisiana

Draisiana
Réplica de uma draisiana feita pelo designer Marcos Bertoni

As duas primeiras décadas do século XIX foram presenteadas com um modelo novo de bike, baseado no celerífero do Conde Méde de Sivrac. Trata-se da Draisiana. Construída pelo engenheiro alemão Karl Von Drais, era basicamente o celerífero com um sistema de frenagem e um sistema de direção mais elaborado que permitia fazer curvas com mais precisão. A Draisiana também permitia o ajuste do selim para pessoas de diferentes estaturas e teve até uma versão infantil no mesmo período. O modelo mostrou-se uma grande inovação, mas ainda não tinha pedais.

Velocípede

Velocípede
Velocípede de 1869 de fabricante desconhecido

Já em 1855 e com uma enorme roda dianteira, surge o velocípede. Pierre Michaux e seu filho Ernest Michaux redesenharam este modelo a partir de uma Draisiana que chegou em sua oficina. A esta altura a Draisiana já tinha mostrado exigir um bom esforço por parte do “ciclista”. Surgem os pedais, inseridos na roda dianteira (que poderia chegar a 1,25m de diâmetro), buscando proporcionar o máximo de conforto possível. Esta bicicleta serviu de exemplo para muitos outros modelos que surgiram posteriormente, mantendo firme a ideia da enorme roda. Os Michaux se mostraram bem sucedidos em seus objetivos de melhorar o desempenho, mas os tombos eram muito frequentes porque dificilmente alguém alcançava o chão com os pés.

Sociáveis

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Os sociáveis são veículos que foram criados a partir da segunda metade do século XIX, baseados na bicicleta. Havia modelos individuais ou “de família” que suportavam mais de uma pessoa. Os sociáveis chegavam a ter mais de quatro rodas e eram impulsionados pela força das pernas, braços ou ambos. Seu desempenho e conforto eram notáveis, por isso passaram a dominar as ruas das grandes cidades da Europa, mudando a configuração urbana e trazendo uma nova noção de tolerância para tempo e distância.

Por outro lado, imagine um novo veículo se proliferando freneticamente nas ruas sem uma legislação capaz de regular o seu uso e nenhuma regra de trânsito? A disputa por espaço público passou a causar acidentes e conflitos diversos. Embora se pareça muito com o velocípede, o sociável é funcionalmente diferente, assim como o impacto que causou. No entanto, é importante mencioná-lo para dar continuidade à nossa linha do tempo.

Bikes seguras

O velocípede, a draisiana e o celerífero causaram duas imagens sobre a bicicleta: você se desloca, mas corre altos riscos de se machucar ou tem que fazer um esforço enorme pra isso. Como a ideia da bicicleta em si era logicamente uma boa, era fundamental alguns ajustes para eliminar os contras que surgiram em relação às magrelas. Portanto, nas últimas décadas do século XIX, J.K. Stanley nos presenteou com bicicletas bem semelhantes às de hoje, na época chamadas de “bicicletas seguras”.

bicicleta-segura
Bicicleta segura de 1910

A primeira e mais urgente mudança foram as rodas de tamanho igual e sem exageros, como acontecia com a roda dianteira enorme da High Wheel. Além disso, trazia um novo quadro, no qual o ciclista poderia pedalar entre as duas rodas, diferentemente do velocípede, no qual pedalava praticamente sobre a enorme roda dianteira. O impacto da bike de segurança foi positivo: a diminuição do risco de queda fez com que a bicicleta se popularizasse por todo o mundo. Agora era eficiente, segura e com menor custo de produção, especialmente pelas rodas iguais, que eram mais fáceis de produzir. Quem diria que uma roda grande pudesse causar tantos problemas, hein?

Após a criação da bike de segurança várias questões começaram a receber a atenção dos usuários e cada vez mais esforço foi feito para diminuir possíveis desconfortos para quem pedala. Um deles – um grande marco, diga-se de passagem – foi a inserção das rodas de borracha com câmara de ar. Os impactos de irregularidades do terreno nas rodas de mesmo tamanho tornaram-se um verdadeiro martírio, tornando necessário pensar em alguma medida. Depois de diversas tentativas frustradas – como molas no selim, garfos com suspensão e aros concêntricos – o inglês John Boyd fez a gentileza de patentear o pneu com câmara de ar, em 1888. A inovação foi um sucesso e utilizada em diversas competições. Foi provado que os pneus de borracha causavam menos impacto nas articulações do ciclista, além de serem muito mais suaves de conduzir. Veja a evolução do velocípede para bike de segurança:

High Wheel e "bicicleta segura"
High Wheel e “bicicleta segura”

A bicicleta e a luta feminina

Surgimento da bicicleta para mulheres
1889: Surge a primeira bicicleta para mulheres

Em 1889 uma novidade que mudaria a história do esporte: a primeira bicicleta feita especialmente para mulheres, construída também por J.K Stanley, o pai da bike de segurança. O que atribuía o caráter de gênero é mesmo a segurança e a facilidade para se deslocar. As rodas eram menores e o cano mais baixo, o que sugere que a criação visava um maior conforto para mulheres que pedalavam. Outro forte indício é que as mulheres desenvolveram novas vestimentas para pedalar, chamadas de bloomers, que eram calças largas até os joelhos. A bicicleta para mulheres foi um verdadeiro escândalo na época. As famílias tradicionais não lidavam bem vendo mulheres montadas em rodas e ainda mostrando os tornozelos. Era inaceitável! Graças a essas guerreiras, as mulheres compartilham o selim de igual para igual com os homens hoje em dia.

E no fim do século XIX…

Diversas variações de bikes surgiram antes mesmo que o século XX iniciasse, já podíamos observar as mudanças mais relevantes:

  • pedais saem da roda e vão para o quadro;
  • as correntes são incluídas para otimizar a impulsão e o giro das rodas;
  • a transmissão é aplicada ao cubo da roda traseira;
  • câmbio com acionamento por alavanca;
  • primeira bicicleta acionada por eixo Cardan (França)

As bikes começaram a fazer tanto sucesso que essas mudanças ocorreram em menos de 5o anos! Ainda no século XIX já se tinha notícia de corrida de bikes e bikers de renome, principalmente na Europa. A partir dos anos 1900 as bikes evoluíram vorazmente, com incontáveis itens e modelos diferentes e as mudanças são tantas que é quase impossível acompanhar. As inovações visavam, basicamente, otimizar a velocidade, a segurança e o conforto.

Foto em destaque: New Haven Museum